terça-feira, 23 de outubro de 2018

A triste força das fake news nas eleições 2018


Realmente as fake news tiveram um peso decisivo nessa eleição! Se ainda havia alguma dúvida, hoje pude ter a certeza disso. Hoje, andando pelo centro de Sousa, parei para tomar uma água de coco e refrescar um pouco do calor. O vendedor é pai de um ex-estudante do IFPB, do PROEJA¹. O filho dele foi meu aluno, e ele sempre gostou de perguntar como o rapaz estava indo na escola. Sempre que passo por ali o senhor me cumprimenta respeitosamente. Em meio a barulheira que estava no centro (uma loja ali perto com um paredão de som fazendo propaganda), como de costume, parei para conversar com ele. Perguntei como ele estava vendo as eleições, e se já tinha um candidato. Rapidamente ele me falou que votaria no Bolsonaro. Perguntei se ele aceitava receber um pequeno texto que tinha em mãos falando sobre o processo eleitoral recente, e ele aceitou. Pedi que lesse com atenção e mostrasse também para o seu filho. Ao defender o voto em seu candidato, ele mobilizou dois argumentos. Disse que era contra o Kit Gay, e que a vice do Haddad iria acabar com as religiões. Tentei argumentar um pouco, mas ele aprofundou ainda mais esse argumento dizendo que o candidato Haddad era contra as leis de Deus. Na hora me passou um turbilhão de argumentos, principalmente relacionados a experiência do seu filho junto a escola. O filho dele teve a oportunidade de estudar em uma escola pública federal, que foi reinventada pela gestão de Haddad no Ministério da Educação. Enquanto esteve lá, ele recebeu uma bolsa de permanência do PROEJA, alimentação em um contexto de dificuldades financeiras da família, acompanhamento psicológico em momentos de crise emocional, e uma séria de outros direitos sociais que lhe foram garantidos nesse período. Isso não foi nenhuma caridade. Foram políticas públicas educacionais que garantiram direitos. Infelizmente, duas fake news tiveram mais influência em seu voto do que todas as experiências concretas com as quais ele e seu filho tiveram contato. Em meio ao barulho que estava ali, vi a dificuldade de tentar argumentar na conversa, e pedi que ele pudesse ler o texto com atenção em casa. Ao me despedir, estendi a mão para cumprimentá-lo e, pela primeira vez em quase 3 anos que o conheço, vi um pouco de reticência em retribuir cumprimento. Senti um pesar enorme. As fake news tiveram uma triste força nessas eleições.


¹Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica

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