segunda-feira, 10 de setembro de 2012

E ainda dizem que o Brasil é o país do futebol



Um dia desses estava voltando para casa cortando caminho pelo campus da UFPE, e como sempre cruzo o laguinho da universidade no meio do percurso. Alguns casais sentados embaixo das árvores, pais passeando com seus filhos e alguns meninos brincando. E essa última cena particularmente me chamou a atenção. Eles não estavam brincando de bola, nem soltando pipas, nem outro tipo de brincadeira que a gente costuma ver com freqüência. Eles estavam brincando mesmo de MMA. Estavam os dois de bermuda, camiseta e com os pés descalços na grama. Ameaçavam uns chutes e socos, e tentavam, em a um agarrado descompensado, jogar o outro no chão. Só que no final das contas acabavam os dois caindo em meio a umas gargalhadas, tirando sarro (no Ceará eu diria “frescando”) um com a cara do outro. Essa semana, ao voltar para casa pelo mesmo trajeto, presenciei uma cena parecida. Dessa vez eram três meninos entre 12 e 13 anos que “brincavam de lutar”. Iam dois para cima de um, derrubavam, e depois imitavam aplicar golpes no “adversário” caído. E em meio a puxões, derrubadas e golpes fingidos, terminavam todos achando a maior graça rolando na grama. Voltei para casa pensando nas cenas que presenciara. E em como a modalidade MMA havia se popularizado aqui no Brasil de uns tempos para cá. E principalmente depois que a Rede Globo “descobriu” que esse era um esporte que movimenta milhões de dólares por luta, e inventou de transmitir algumas edições na TV aberta. Não vou nem me ater aqui falar muito sobre essas transmissões, somente que ouvir o Galvão Bueno narrando uma luta do UFC foi uma das experiências televisivas mais nonsense as quais tive a infelicidade de assistir. Pois bem, o fato é que após algumas exibições parece que eles encontraram o “caminho do ouro” (ou seria do octógono) de uma nova modalidade com potencial para arrebatar uma enorme legião de tele-espectadores. É porque o brasileiro é assim mesmo, né? Tem uma incrível capacidade de torcer (não estou dizendo que isso é bom ou ruim, isso é outra conversa), principalmente quando vê “um dos seus” “representar o país” em alguma modalidade esportiva. E disso o UFC está cheio, pois em três das principais categorias, os atuais campeões são brasileiros. Muito esperta essa Rede Globo! E o Galvão: “Opa, opa! Pegou, pegou! Vamo lá, vai terminar, vai terminar! Mão esquerda, um, dois, três, quatro, bate! Acabou, acabou! Junior, Junior, Junior, Junior Cigano do Brasil!!!” Guenta coração, hein Galvão?! (E que narração sem noção). Mas a turma do plim, plim não é besta. Logo tiraram o camarada de cena e escolheram outro narrador que não “se passasse” tanto (Sérgio Mauricio do SPORTV). Eles são bestas de brincar com um esporte milionário desses?! Acho que não, então falou Galvão! E na rua nos dias seguintes às transmissões das lutas não se fala outra coisa. “-Tu viu a briga ontem na televisão?!”    “-Mermão, foi peia muita!”. “-É sola meu chapa!”. “-Não deu nem pro chá!”. “-E aquele murro lá?! E a queda?!”. “-Quebrou o braço do cara, sem pena!”. E pouco a pouco todo o brasileiro está se transformando em um grande entendedor de MMA. “-Não rapaz, é porque o Junior Cigano tem um boxe muito bom!”. “-Aquele cara lá, o Minotauro, (ou seria o Minotouro?) é muito bom no chão”. “-Ele devia ter levado logo para o chão...” Mas a gota d’água mesmo foi quando mexeram com o orgulho do brasileiro... Ninguém podia deixar passar! Extrapolaram mesmo, não foi?!. O camarada disse que não sabia nem que aqui tinha internet. E foi justamente pela internet que o povo brasileiro viu a peia que ele levou (não, não foi pela Globo). Tá certo que ele bateu também (bateu sim). Mas o importante é que no final a surra que levou foi maior. E todo mundo trocando de link na internet para não perder nenhum movimento. Tá bom que um ou outro passavam, pois a nossa conexão não é das melhores. Mas o orgulho brasileiro veio a desforra! Orgulho, sei... E foi um passa-passa de posts no Facebook em tempo real. E a trollagem troando solta no mundo virtual. Ninguém podia perder a oportunidade! Nem o Anderson Silve que até tirou uma com a cara dele no final. Orgulho, sei... E teve até queima de fogos aqui pelas bandas da Cidade Universitária! Mas do que eu estava falando mesmo no começo?  Ah, lembrei...

E ainda dizem que o Brasil é o país do futebol...



Texto escrito em 8 de julho de 2012, logo após a luta Anderson Silva x Chael Sonnen no UFC 148.
 

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