Um dia desses estava voltando
para casa cortando caminho pelo campus da UFPE, e como sempre cruzo o laguinho
da universidade no meio do percurso. Alguns casais sentados embaixo das
árvores, pais passeando com seus filhos e alguns meninos brincando. E essa
última cena particularmente me chamou a atenção. Eles não estavam brincando de
bola, nem soltando pipas, nem outro tipo de brincadeira que a gente costuma ver
com freqüência. Eles estavam brincando mesmo de MMA. Estavam os dois de bermuda,
camiseta e com os pés descalços na grama. Ameaçavam uns chutes e socos, e
tentavam, em a um agarrado descompensado, jogar o outro no chão. Só que no
final das contas acabavam os dois caindo em meio a umas gargalhadas, tirando
sarro (no Ceará eu diria “frescando”) um com a cara do outro. Essa semana, ao
voltar para casa pelo mesmo trajeto, presenciei uma cena parecida. Dessa vez
eram três meninos entre 12 e 13 anos que “brincavam de lutar”. Iam dois para
cima de um, derrubavam, e depois imitavam aplicar golpes no “adversário” caído.
E em meio a puxões, derrubadas e golpes fingidos, terminavam todos achando a
maior graça rolando na grama. Voltei para casa pensando nas cenas que
presenciara. E em como a modalidade MMA havia se popularizado aqui no Brasil de
uns tempos para cá. E principalmente depois que a Rede Globo “descobriu” que
esse era um esporte que movimenta milhões de dólares por luta, e inventou de
transmitir algumas edições na TV aberta. Não vou nem me ater aqui falar muito
sobre essas transmissões, somente que ouvir o Galvão Bueno narrando uma luta do
UFC foi uma das experiências televisivas mais nonsense as quais tive a infelicidade de assistir. Pois bem, o fato
é que após algumas exibições parece que eles encontraram o “caminho do ouro”
(ou seria do octógono) de uma nova modalidade com potencial para arrebatar uma
enorme legião de tele-espectadores. É porque o brasileiro é assim mesmo, né?
Tem uma incrível capacidade de torcer (não estou dizendo que isso é bom ou ruim,
isso é outra conversa), principalmente quando vê “um dos seus” “representar o
país” em alguma modalidade esportiva. E disso o UFC está cheio, pois em três
das principais categorias, os atuais campeões são brasileiros. Muito esperta
essa Rede Globo! E o Galvão: “Opa, opa! Pegou, pegou! Vamo lá, vai terminar,
vai terminar! Mão esquerda, um, dois, três, quatro, bate! Acabou, acabou!
Junior, Junior, Junior, Junior Cigano do Brasil!!!” Guenta coração, hein
Galvão?! (E que narração sem noção). Mas a turma do plim, plim não é besta. Logo
tiraram o camarada de cena e escolheram outro narrador que não “se passasse”
tanto (Sérgio Mauricio do SPORTV). Eles são bestas de brincar com um esporte
milionário desses?! Acho que não, então falou Galvão! E na rua nos dias seguintes
às transmissões das lutas não se fala outra coisa. “-Tu viu a briga ontem na
televisão?!” “-Mermão, foi peia
muita!”. “-É sola meu chapa!”. “-Não deu nem pro chá!”. “-E aquele murro lá?! E
a queda?!”. “-Quebrou o braço do cara, sem pena!”. E pouco a pouco todo o
brasileiro está se transformando em um grande entendedor de MMA. “-Não rapaz, é
porque o Junior Cigano tem um boxe muito bom!”. “-Aquele cara lá, o Minotauro,
(ou seria o Minotouro?) é muito bom no chão”. “-Ele devia ter levado logo para
o chão...” Mas a gota d’água mesmo foi quando mexeram com o orgulho do
brasileiro... Ninguém podia deixar passar! Extrapolaram mesmo, não foi?!. O
camarada disse que não sabia nem que aqui tinha internet. E foi justamente pela
internet que o povo brasileiro viu a peia que ele levou (não, não foi pela
Globo). Tá certo que ele bateu também (bateu sim). Mas o importante é que no
final a surra que levou foi maior. E todo mundo trocando de link na internet
para não perder nenhum movimento. Tá bom que um ou outro passavam, pois a nossa
conexão não é das melhores. Mas o orgulho brasileiro veio a desforra! Orgulho,
sei... E foi um passa-passa de posts no Facebook em tempo real. E a trollagem
troando solta no mundo virtual. Ninguém podia perder a oportunidade! Nem o
Anderson Silve que até tirou uma com a cara dele no final. Orgulho, sei... E
teve até queima de fogos aqui pelas bandas da Cidade Universitária! Mas do que
eu estava falando mesmo no começo? Ah, lembrei...
E ainda dizem que o Brasil é o país do futebol...
Texto
escrito em 8 de julho de 2012, logo após a luta Anderson Silva x Chael Sonnen
no UFC 148.
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